Pedra na vesícula: Causas, Sintomas e Tratamento

10/11/2021

A colelitíase ou pedra na vesícula é mais comum do que imaginamos.  Nos Estados Unidos é estimado que 15% da população possua colelitíase, já no continente europeu estima-se que 20% das pessoas sejam portadoras de colelítase. No Brasil, acredita-se que os dados sejam semelhantes ao dos americanos e dos europeus. Nesta postagem falaremos sobre as causas, sintomas, tratamentos e prevenção de pedra na vesícula.

Nessa postagem falarei sobre as principais perguntas relacionadas a pedra na vesícula:


  1. O que causa pedra na vesícula?
  2. Quais são os sintomas de pedra na vesícula?
  3. É perigoso ter pedra na vesícula?
  4. Qual o tratamento de pedra na vesícula?
  5. Quem tem pedra na vesícula não pode comer quais alimentos?
  6. Como prevenir pedra na vesícula?
  7. Quais as consequências da retirada da vesícula biliar?



Mas antes de responder a essas perguntar vou te explicar o que é a pedra na vesícula. O nome científico para pedra na vesícula é Colelitíase, que acontece quando se formam “cálculos biliares”. Estes cálculos são verdadeiras pedras dentro da vesícula biliar. 


Agora que você já sabe o que é a colelitíase, vamos entender melhor como ela se forma. 


A vesícula biliar fica aderida na parte inferior do fígado, e é responsável por armazenar e solubilizar parte da bile produzida pelo fígado. 


A bile produzida pelo fígado tem a função de auxiliar a absorção de gorduras e vitaminas lipossolúveis (como as vitaminas A, D, E e K). Uma vez produzida, a bile é direcionada para o intestino por meio de uma estrutura tubular chamada de colédoco. 


Muita atenção para esta informação que acabou de ser dada. A bile é produzida pelo fígado, a vesícula biliar NÃO produz bile, ao contrário do que muitos acreditam. 


A função da vesícula biliar é armazenar parte dessa bile como se fosse um reservatório “extra”.  Quando acontece grande ingestão de gordura e existe a necessidade de um volume maior de bile para absorver todo esse alimento gorduroso, a vesícula biliar “libera” esse conteúdo extra, vídeo aula 1


O problema começa a surgir quando a vesícula biliar perde a capacidade de solubilizar a bile, ou seja, de deixá-la fluida. Uma vez que isso ocorre, esta bile se transforma em um material mais denso, ao que denominamos barro ou lama biliar. Esta bile agora densa estará a um passo de se transformar nas famosas “pedras na vesícula”.


Vídeo 1: Resumo sobre “pedra na vesícula” e seu tratamento.


Agora vamos as respostas das perguntas:


1. O que causa pedra na vesícula?


Agora que você já entendeu o passo a passo para a formação da pedra na vesícula, fica mais simples compreender o que causa essa formação. 


Podemos dividir os fatores causais em:

  • Fatores sistêmicos;
  • Fatores relacionados a bile e vesícula biliar;


Primeiramente, citarei os principais fatores de riscos sistêmicos para desenvolver pedra na vesícula:

  • Obesidade;
  • Idade acima de 40 anos;
  • Familiares com pedra na vesícula;
  • Gravidez;
  • Reposição hormonal; 
  • Uso de anticoncepcional oral; 
  • Dislipidemia – Colesterol alto
  • Ganho ou perda de peso muito rápido;
  • Cirurgia bariátrica;
  • Uso de medicamentos análogos de somatostatina;
  • Nutrição para-enteral prolongada;
  • Diabetes;
  • Baixo consuma de fibras e alta em açúcares altamente refinados;
  • Anemia falciforme e outras anemias hemolíticas.
  • Fatores hormonais (em particular, resistência à insulina);
  • Alterações genéticas no metabolismo do colesterol;
  • Variações do microbiota intestinal.

Fatores locais estritamente dependentes da vesícula biliar:

  • Função do músculo liso prejudicada como dismotilidade, inflamação crônica da parede da vesícula e excesso de acúmulo de mucina intraluminal;
  •  Supersaturação da bile em colesterol e precipitação de cristais sólidos.



2.Quais são os sintomas de pedra na vesícula?


Muitos pacientes são surpreendidos em exames de rotina, como a ultrassonografia de abdome total ou tomografia de abdome, com o diagnóstico de colelitíase e referem que não tinham qualquer queixa ou sintoma.


No entanto, quando as pedras se mexem e induzem uma contração espástica da vesícula iniciam-se os sintomas. Geralmente, isso ocorre após comer gorduras ou temperos mais “fortes”, em alguns casos até o cheiro de alguns alimentos pode desencadear a “cólica biliar”. Os sintomas mais comuns das crises de pedra na vesícula são:


  • Dor na região superior direita do abdome, próximo às costelas;
  • Sensação de má digestão e estufamento;
  • Náuseas ou vômitos;
  • Dor nas costas;
  • Perda de apetite ou hiporexia.


Caso a dor abdominal tenha uma intensidade muito forte, e seja associada a vômitos de repetição e olhos amarelos, pode ter ocorrido a inflamação da vesícula – colecistite aguda, migração da pedra da vesícula para o canal da bile – colédoco ou evoluído para uma pancreatite aguda biliar. Nestes casos é fundamental procurar atendimento médico de urgência porque houve uma complicação que necessita de tratamento imediato.


3. É perigoso ter pedra na vesícula?

A colelitíase é uma doença silenciosa na maior parte dos pacientes, no entanto, ao longo da vida existe o risco das pedras na vesícula criarem situações de grande risco para sua saúde! Vou descrever os 3 principais riscos de quem tem pedras na vesícula:


  • Colecistite aguda – quando o cálculo biliar fica preso no ducto que escoa bile da vesícula para o colédoco. Essa impactação da pedra desencadeia um aumento da pressão dentro da vesícula, como se fosse uma panela de pressão, além de acumular bactérias no seu interior, iniciando-se fortes contrações para expulsar essa pedra. Esse processo é uma inflamação aguda que resulta em uma potencial infecção grave com necessidade de cirurgia de urgência para que esta infecção não se dissemine pelo corpo (sepse).


  • Coledocolitíase – pedra que migrou da vesícula e ficou presa no canal da bile (colédoco). Isso resulta em processo de inflamação e infecção progressiva, chamada de colangite, figura 2. Essa situação precisa ser resolvida em caráter de urgência por meio da extração do cálculo impactado no canal por meio de procedimento – colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE).


  • Pancreatite aguda – a partir do momento, que a pedra sai da vesícula e passa através do colédoco, existe uma possibilidade de atritar ou mesmo entupir a confluência do ducto da bile com do pâncreas (Wirsung) e desencadear um processo inflamatório do pâncreas – pancreatite, figura 3. Felizmente, na maioria dos casos a pancreatite é leve, no entanto, em 10% dos casos pode ser grave e pode levar a óbito. 



Figura 2: Coledocolitíase –pedra da vesícula dentro do canal da bile.


Figura 3: Pancreatite biliar – migração da pedra na vesícula e inflamação do pâncreas.





4. Qual o tratamento de pedra na vesícula?


Agora que você já sabe bastante sobre a pedra na vesícula, vamos esclarecer sobre o seu tratamento. 


Muitos pacientes perguntam se esse processo de “concentração” da bile pela vesícula é reversível e se essas pedras podem ser dissolvidas. Infelizmente, não existe tratamento definitivo e comprovadamente eficaz, por meio de medicamentos, que possa dissolver definitivamente as pedras na vesícula e fazer a vesícula biliar retomar seu papel de deixar a bile mais fluida. 


Existem dados na literatura da utilização do ácido ursodesoxicólico, que obtém uma dessaturação da bile por meio da redução na absorção e na síntese do colesterol, no entanto, é indicado em casos selecionados como pacientes com alto risco operatório, podendo ser associado ao procedimento de CPRE.


 O uso do ácido ursodesoxicólico também é descrito na literatura para uso na prevenção de colelitíase em pacientes pós bariátrica.


O tratamento padrão ouro para tratamento de pedra na vesícula é a colecistectomia por laparoscopia. Existe também a possibilidade de realizar essa cirurgia por via robótica.


Na colecistectomia laparoscópica, é realizada a retirada da vesícula biliar e as pedras no interior. Diferentemente do que muitas pessoas pensam não é possível abrir a vesícula e retirar as pedras, ou bombardear a vesícula com ondas de som a semelhança do que realizado para tratamento de pedras nos rins.


A cirurgia para pedra na vesícula – colecistectomia, é uma das cirurgias mais realizadas no mundo, está entre as top 10, dentro do aparelho digestivo e só perde para a cirurgia para retirada do apêndice. É realizada com o paciente sob anestesia geral, o tempo cirúrgico gira em torno de 30-90 minutos e o tempo necessário de permanência hospitalar é de 12-24horas, aproximadamente.


A colecistectomia laparoscópica é segura e apresenta risco de complicações cirúrgicas muito baixas (menor que 1%) se realizada de forma padronizada por cirurgião experiente. 


A colecistectomia laparoscópica é realizada por meio de pequenas incisões ou furinhos na parede abdominal, 5 a 10mm. Mas em paciente que possuem um apelo estético maior, pode ser feita com furinhos ainda menores de 3mm, utilizando-se material de minilaparoscopia, e dependendo do caso a localização dos furinhos pode ser modificado. A extração da vesícula é aplicada no término da cirurgia puxando-a através de um dos furinhos.


Durante a cirurgia de retirada de pedras da vesícula, é possível verificar se houve alguma migração de pedras antes do procedimento ser realizado. Essa busca pelos cálculos biliares no colédoco chama-se colangiografia intra-operatória, que é realizada quando for necessário.

5.Quem tem pedra na vesícula não pode comer quais alimentos?


Paciente que está esperando para realizar o procedimento, ou que tem contraindicação para realização da colecistectomia laparoscópica por alto risco operatório, ou simplesmente não quer realizar a cirurgia, necessitam abster-se de alimentos ricos em gordura animal e vegetal, lembrando que doces, chocolates, leite integral e azeite são riscos em gordura, além dos temperos fortes. 


Desta forma, a dieta precisa ser bem rigorosa para diminuir os riscos das complicações descritas na resposta da pergunta 3.


6. Como prevenir pedra na vesícula?

Uma importante medida é incluir mudanças no estilo de vida como atividades físicas, controle de peso, e alterações nos modelos de dieta restringindo gorduras, dando preferência a dietas pobre em carboidratos e rico em proteínas vegetais, além de consumo de azeite extra-virgem, ácidos graxos ômega-3, fibras e vegetais, suplementação de vitamina C, frutas e diminuir consumo de álcool.


7. Quais as consequências da retirada da vesícula biliar?


Eu sei que você está se perguntando: Mas essa vesícula biliar que precisa ser retirada na cirurgia não vai fazer falta? 


A vesícula retirada já estava doente, apresentando dificuldade de solubilizar a bile e com distúrbio de esvaziamento, motivo pelo qual desenvolveu as pedras. Portanto, na grande maioria dos pacientes submetidos a colecistectomia laparoscópica, não ocorre qualquer diferença de digestão ou alteração de hábito de intestinal.


No entanto, uma minoria de pacientes pode apresentar uma sensação de má digestão e aumento da frequência evacuatória, mas somente quando ingerem grande quantidade de gordura animal ou vegetal.


Para finalizar, existe alguma recomendação de dieta após a retirada da vesícula? –Sim! Nas primeiras 2 semanas de pós-operatório recomendamos dieta pobre em gordura animal e vegetal, por ser um período de adaptação da dinâmica do fluxo biliar hepato-intestinal.

Caso haja a necessidade de avaliação do seu caso por um especialista certifique-se que esse profissional possua o Título de Especialista em Cirurgia do Aparelho Digestivo. Essa pesquisa pode ser feita por meio do site do conselho regional de medicina do seu estado.

Referências bibliográficas:

  1. Littlefield A, Lenahan C. Cholelithiasis: Presentation and Management. J Midwifery Womens Health. 2019 May;64(3):289-297. https://doi.org/10.1111/jmwh.12959.
  2. Gutt C, Schläfer S, Lammert F. The Treatment of Gallstone Disease. Dtsch Arztebl Int. 2020 Feb 28;117(9):148-158. DOI: 10.3238/arztebl.2020.0148.
  3. Wilkins T, Agabin E, Varghese J, Talukder A. Gallbladder Dysfunction: Cholecystitis, Choledocholithiasis, Cholangitis, and Biliary Dyskinesia. Prim Care. 2017 Dec;44(4):575-597. DOI: 10.1016/j.pop.2017.07.002
  4. Di Ciaula A, Portincasa P. Recent advances in understanding and managing cholesterol gallstones. F1000Res. 2018 Sep 24;7:F1000 Faculty Rev-1529. DOI: 10.12688/f1000research.15505.1


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