DORES NA VIRILHA: HÉRNIA INGUINAL OU PODE SER A ARTICULAÇÃO DO QUADRIL?

6/6/2022

Dores na virilha são muito comuns na população geral e chega a acometer até 18 % dos que praticam alguma atividade esportiva. 

Apesar do avanço da medicina nas últimas décadas, alguns pacientes que possuem dores na região da virilha por problemas do quadril acabam sendo tratados como hérnias da região inguinal ou vice-versa.

Geralmente essa “confusão” do diagnóstico se dá pela falta de uma avaliação médica especializada, pelo risco de as duas lesões poderem coexistirem, além da alta prevalência de lesões que não dão sintomas e que aparecem nos exames de imagem. 

A história clínica realizada pelo médico, associado à um exame físico bem feito e exames de imagem de boa qualidade são fundamentais para a conclusão do diagnóstico definitivo. 

 

Quais são as principais patologias ortopédicas que podem gerar dores na virilha?

Dentre as principais doenças do quadril que podem confundir com as dores na virilha ou da parte de baixo do abdômen, podemos citar:

- Impacto Fêmoro Acetabular (IFA).

- Artrose do Quadril.

- Osteonecrose do Quadril.

- Tendinite do íliopsoas.

- Pubeíte ou Pubalgia – lesões dos adutores.

 

Impacto Fêmoro Acetabular – o que é? 

Entenda a sua relação com as hérnias abdominais e as dores no púbis.

O impacto fêmoro acetabular é uma causa importante de dores na região da virilha, trata-se de uma patologia de conhecimento relativamente recente na ortopedia (2003). Geralmente os pacientes apresentam sintomas mecânicos, causados por alguns movimentos, como entrar e sair do carro, ficar sentado em locais baixos, cruzar as pernas, movimentos de chute alto ou giro do quadril (tênis e golf). Estes apresentam dores na região anterior da virilha, mas também pode ocorrer irradiação para a região de dentro da coxa até o joelho, irradiação para o púbis, além da região dos testículos no homem e dos grandes lábios na mulher. Inúmeros pacientes passam em cirurgiões gerais e urologistas antes de chegarem ao ortopedista.

O IFA é causado por um conflito que ocorre entre a cabeça do fêmur e o acetábulo. Pode ser do tipo CAME, quando ocorre um abaulamento (“caroço de osso”) na transição entre a cabeça e o colo do fêmur, ou do tipo PINCER, quando a deformidade óssea (“bico ósseo”) ocorre na bacia (acetábulo). Em mais de 70% das vezes o impacto é misto, ou seja, CAME e PINCER juntos. Geralmente essas deformidades ocorrem desde o nascimento ou durante a adolescência por excesso de atividade física ou por um escorregamento leve, moderado ou grave da cabeça do fêmur na sua área da cartilagem durante a fase de crescimento.

 

Quando ocorre o atrito repetido entre os dois ossos, estruturas nobres como o labrum do quadril e a cartilagem do acetábulo sofrem uma lesão por esmagamento, pois ficam prensadas entre as duas estruturas ósseas. Isso faz com que ocorra um “descolamento” desta cartilagem e, desta forma, iniciando um processo mecânico e, posteriormente, bioquímico que pode desencadear no surgimento da artrose do quadril a longo prazo. 

O impacto entre os dois ossos produz uma energia mecânica que pode ser dissipada em estruturas próximas e adjacentes como a parede abdominal e o púbis principalmente (além das sacro-ilíacas e a coluna). Alguns pacientes que praticam atividades esportivas de alta demanda podem até desenvolver uma fragilidade da parede abdominal ou até mesmo uma lesão do músculo oblíquo externo, chamada hérnia do esporte. Outros podem desenvolver um processo inflamatório crônico na musculatura que se insere e origina no púbis e no disco púbico, chamada pubeíte ou pubalgia.

“É muito importante afastar o IFA como causa da pubeíte ou da fragilidade abdominal, visto que, essas lesões tratadas isoladamente podem se recidivarem”.

O IFA, por ser uma patologia mecânica, muitas vezes tem indicação do tratamento cirúrgico. Fisioterapia pode ser realizada nos casos mais leves. Atualmente o tratamento cirúrgico padrão ouro é a resseção dos excessos de ossos por artroscopia do quadril associado ao reparo do labrum e regularização da lesão da cartilagem lesionada. 

É comum os pacientes apresentarem as duas patologias?

   A resposta é sim!!!! É por isso que deixei enfatizado no início do texto que é muito importante uma avaliação médica especializada. 

Um estudo muito interessante demonstrou que até 40 % das pessoas com IFA podem ter hérnia inguinal ou femoral ASSINTOMÁTICAS. Chegaram a essa conclusão fazendo um ultrassom da parede abdominal dos pacientes que já tinham o diagnóstico confirmado de impacto femoro acetabular através da injeção de anestésico local na articulação do quadril.  Com a melhora total das dores do quadril através da aplicação do anestésico, fechou-se o diagnóstico como sendo o quadril a causa das dores. Aliás, rotineiramente usamos o recurso de injetar anestésico na articulação do quadril quando a história clínica, o exame físico e os exames de imagens são duvidosos.

Dos pacientes com dores na virilha, estima-se que até 15% tenham impacto fêmoro acetabular.

Todo o IFA necessita de tratamento?

A resposta é NÃO!!!! Isto precisa ser ressaltado. Novamente volto a enfatizar a importância da avaliação médica especializada. Estudos em atletas jovens demonstram que mais de 20 % dos indivíduos podem ter alterações morfológicas nos ossos sem nunca terem tido dores no quadril. O que podemos fazer ao identificar essa predisposição ao IFA é orientar os pacientes a evitar atividades físicas com excesso de flexão do quadril, movimentos de giro e chute alto.

Caso sinta dores na virilha consulte sempre um médico especialista, os primeiros sintomas podem ser um indicativo que algo está errado no seu corpo. A avaliação adequada pode prevenir que lesões ainda iniciais possam aumentar com o tempo. 

 

Luiz Henrique Silveira Rodrigues CRM 116403 RQE 29512

Membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia

Membro da Sociedade Brasileira de Quadril

Membro da The Hip Preservation Society (ISHA)

www.drlh.com.br

 

 

Referências:

 

1 - Naal FD, Dalla Riva F, Wuerz TH, Dubs B, Leunig M. Sonographic Prevalence of Groin Hernias and Adductor Tendinopathy in Patients With Femoroacetabular Impingement. The American Journal of Sports Medicine. 2015;43(9):2146-2151. doi:10.1177/0363546515591259

 

2 - Maarten A. Röling, Nina M.C. Mathijssen, Rolf M. Bloem, Incidence of symptomatic femoroacetabular impingement in the general population: a prospective registration study, Journal of Hip Preservation Surgery, Volume 3, Issue 3, August 2016, Pages 203–207, https://doi.org/10.1093/jhps/hnw009

3 - Ganz, Reinhold, et al. "Femoroacetabular impingement: a cause for osteoarthritis of the hip." Clinical Orthopaedics and Related Research® 417 (2003): 112-120.

4 - Khanna, Vickas, et al. "Incidence of hip pain in a prospective cohort of asymptomatic volunteers: is the cam deformity a risk factor for hip pain?." The American journal of sports medicine 42.4 (2014): 793-797.

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